
Alice Nunes, comunicadora de ciência e investigadora em Antropologia no Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), abriu a sessão com uma análise sobre o debate parlamentar da interrupção voluntária da gravidez em Portugal. Mostrou como diferentes forças políticas recorrem à ciência para sustentar posições opostas sobre o aborto, selecionando os dados e os argumentos científicos que melhor se alinham com as suas perspetivas ideológicas, mesmo recorrendo a fontes de informação iguais.
A apresentação destacou a ausência de um organismo independente de aconselhamento científico à Assembleia da República, deixando aos partidos a responsabilidade de interpretar e validar informação científica no espaço político. Alice Nunes abordou também o uso da incerteza científica como ferramenta argumentativa por ambos os lados do espetro político, servindo frequentemente para descredibilizar posições opostas.

Seguiu-se Déborah Martins, investigadora da Universidade de Évora e doutoranda em Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso, no Brasil. A investigação centrou-se nos relatos de viagem de Hercule Florence, pintor e inventor francês do século XIX, e na forma como essas narrativas contribuíram para a construção da identidade da cidade de Cuiabá, capital do estado brasileiro de Mato Grosso e cidade natal da investigadora.
Déborah Martins defendeu a importância de revisitar estas narrativas históricas para compreender como determinadas perceções sobre a cidade foram construídas e perpetuadas ao longo do tempo. A investigação permitiu também complementar e aprofundar o conhecimento sobre a sua identidade cultural e histórica da região.

A última comunicação foi apresentada por Manuel Conceição, investigador em História e Arqueologia na Universidade de Évora e na IN2PAST (laboratório de investigação em Património, Artes, Sustentabilidade e Território). O investigador explorou o papel das elites políticas covilhanenses na transformação urbana da cidade, analisando o impacto que as decisões e dinâmicas históricas continuam a a ter na organização da cidade e no planeamento do futuro.
Durante a apresentação, sublinhou ainda a importância da interdisciplinaridade para apoiar decisões futuras sobre o planeamento da cidade e valorizar o conhecimento local na tomada de decisão urbana.

Apesar de partirem de temas distintos, as três comunicações convergiram numa mesma ideia: a ciência não existe isolada da sociedade, sendo também uma ferramenta para interpretar o passado, discutir o presente e pensar o futuro.