
A editora da seção de ciência no jornal Público, Teresa Firmino, é taxativa quanto ao impacto que o fenómeno da desinformação tem não só nos jornais. A jornalista participava num debate sobre “A desinformação e o seu impacto na ciência", no congresso da SciCom.Pt2026.
Trata-se, afinal, de “concorrência”, uma vez que o jornalismo é “informação verificada, ética e credível, mas competimos com uma desinformação que tem um alcance massivo”. E “estamos a perder esta luta, pois uma peça jornalística raramente alcança o impacto da mentira original”, alerta a jornalista.
Tanto Teresa Firmino como Luís Graça, investigador no Instituto de Medicina Molecular, professor de Imunologia, Vice-reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa criticam a prática jornalística de dar "voz à outra parte", num exercício do direito de contraditório, quando esta não apresenta evidência científica. Forçar este equilíbrio é considerado uma arma de propagação da desinformação.
Fact checking como arma de verificação
Para verificar a informação, há, cada vez mais, “fact-checking”, dando visibilidade a uma ferramenta fundamental do jornalismo. Contudo, “a disseminação é mais rápida, massiva e personalizada graças aos algoritmos e à inteligência artificial, apelando aos medos e crenças das pessoas”, defende Sara Monteiro, do Viral Check, projeto dedicado ao fact-checking em saúde.

A desinformação tem consequências reais e graves, como doentes que abandonam tratamentos oncológicos convencionais por "curas" pseudocientíficas, resultando em casos que se tornam incuráveis devido ao atraso no tratamento, alertou a jornalista especializada em saúde.
Rita Ponce, investigadora e docente faz notar que a responsabilidade da informação que chega ao público é de todos. “A qualidade das notícias depende muito da qualidade do comunicado de imprensa original das universidades e laboratórios”, afirma. Por outro lado, os cientistas “também precisam de estar mais disponíveis para responder a perguntas” dos jornalistas e ocupar o espaço mediático.
Um dos pontos defendido pelo Professor de Imunologia e Vice-reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Luís Graça, é que a ciência é um esforço coletivo onde o contributo individual é secundário. “Na ciência a opinião pessoal é totalmente irrelevante; o que importa é a evidência que sustenta o facto”, em que difere das humanidades, onde a autoria é central.