No corrupio do SciComPt2026, por entre claustros e salas do Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora, António Granado atravessa o espaço quase despercebido. Vai a caminho da sessão “Quando jornalismo e ciência fazem match: presente e futuro”, mas poderia estar em qualquer uma das salas do Colégio Espírito Santo, onde decorre o congreso SciComPt2026. Como já passou por muitos lugares da ciência e do jornalismo, parece nunca precisar de ocupar o centro de nenhum. Ainda assim, poucos nomes estão tão profundamente ligados à comunicação de ciência em Portugal.
A disponibilidade para conversar contrasta com o peso do percurso que carrega. Pai, avô, professor universitário, jornalista durante mais de duas décadas, editor, subdiretor de jornal, responsável pela transição digital de uma redação nacional e, mais tarde, figura central na formação académica de comunicadores de ciência, António Granado mantém uma postura discreta, mas determinante.

Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Lisboa, numa altura em que a comunicação de ciência em Portugal ainda não existia como campo estruturado. Seguiu depois para uma pós-graduação em Ciências da Informação na Universidade Católica Portuguesa. O encontro com o jornalismo de ciência aconteceu no início da década de 90, de forma quase contingente, no recém-criado jornal Público. “Fui parar à secção de ciência e, desde aí, apaixonei-me pela área”, recorda.
A partir daí, o percurso confunde-se com a própria história do jornalismo científico em Portugal. Quando começou, o Público, a RTP e outras redações ainda tinham secções dedicadas à ciência e jornalistas especializados. Hoje, reconhece, esse cenário mudou drasticamente. “Neste momento, apenas o Público continua com uma secção de ciência”, observa, acrescentando que o jornalismo de ciência vive “tempos muito difíceis”, seja devido à pressão da atualidade permanente, seja pela erosão de espaços editoriais especializados. A certa altura, essa lógica começou a desgastá-lo e o jornalismo passou a ser, nas suas palavras, “demasiado espuma dos dias”.
“Estamos sempre em cima do acontecimento e muitas vezes com temas que não interessam a ninguém", lamenta. Esse afastamento progressivo do ritmo das redações não significou o abandono do jornalismo de ciência. Pelo contrário, António Granado veio a moldar a forma como a comunicação de ciência é feita em Portugal. Em 2011, em conjunto com Ana Sanchez, ajudou a criar o mestrado em Comunicação de Ciência na NOVA FCSH e no ITQB NOVA, o primeiro e mais duradouro programa do género no país.
Ainda hoje, Ana Sanchez recorda a conversa de forma quase direta: “Não queres pensar num mestrado em comunicação de ciência?” E António Granado, sem hesitação, aceita embarcar neste novo passo marcante para a área. Para Ana Sanchez, essa resposta diz muito sobre ele. “O António diz que sim a quase a tudo, entusiasma-se muito com ideias em que acredita.”
O que explica o seu sucesso do mestrado não é apenas o contexto ou o desenho curricular. Para Ana Sanchez, há um elemento central que atravessa todo o projeto: o próprio António Granado. “O António traz um entusiasmo grande a todo o projeto”, afirma. E esse entusiasmo, explica, é palpável. Manifesta-se na forma como fala do mestrado, na disponibilidade permanente para responder a dúvidas, na forma como resolve problemas institucionais e burocráticos que, muitas vezes, parecem intransponíveis. “O António resolve tudo. Se há um problema, ele liga, encontra alguém, e as coisas avançam.”
“O António tem uma eficiência absurda”
Mais que um académico ou jornalista reconvertido, António Granado é uma figura de mediação. Essa capacidade prolonga-se em diversos projetos, principalmente no podcast “90 Segundos de Ciência”, programa diário emitido na Antena 1 em conjunto com Joana Lobo Antunes, comunicadora de ciência e professora no Instituto Superior Técnico,.
A ideia surgiu de uma frustração partilhada entre investigadores e comunicadores: a invisibilidade da ciência portuguesa nos media. “Em vez de nos lamentarmos, [decidimos que] vamos nós pôr mais ciência nos media”, lembra Joana Lobo Antunes. Hoje, o programa ultrapassa os dois mil episódios e construiu um arquivo sonoro da ciência portuguesa contemporânea. Mas, mais do que a escala, Joana destaca o método, e, em particular, o papel de António Granado no seu funcionamento.
A relação entre Joana Lobo Antunes e António Granado começou muito antes deste projeto. Tinha 15 anos quando ele foi seu professor de português. “Era um ótimo professor”, recorda. Anos depois, voltaram a cruzar-se, desta vez no contexto da comunicação de ciência. António Granado acabaria por coorientar o seu pós-doutoramento, precisamente quando o mestrado em comunicação de ciência começava a ganhar forma. 2012, diz Joana, foi um ano “mágico”: o início de uma colaboração que se tornaria estrutural no ecossistema da área.
Joana Lobo Antunes, reconhece que “O António tem uma eficiência absurda”, diz. “Se há cinquenta palavras para dizer algo, ele escolhe as dez certas.” Esse mesmo princípio atravessa os projetos internacionais em que participa, como o FRONTIERS, um consórcio europeu que financia residências de jornalistas em instituições científicas.
António Granado tem sido também um crítico daquilo a que chama “jornalismo sentado”, a crescente dependência de agências, comunicados e revistas científicas, em detrimento do trabalho de terreno. A crítica é, em grande parte, pedagógica e faz parte dos ensinamentos que transmite aos estudantes e investigadores que orienta.
“Não é o protagonismo que lhe interessa”
Fora do trabalho, Joana Lobo Antunes e Ana Sanchez descrevem António Granado como um homem com múltiplos interesses, longe da figura exclusivamente académica. Um deles é a observação de aves. Joana Lobo Antunes recorda uma viagem em que António Granado travou o carro abruptamente numa estrada nacional para observar uma espécie rara. “Mesmo a guiar, viu o pássaro e parou.”

Esta história funciona como contraponto a um perfil meramente institucional: António Granado demonstra ter um olhar treinado para identificar o raro, o específico ou o facilmente ignorado. Talvez seja essa a continuidade mais profunda do seu percurso. No jornalismo, na academia ou na construção de projetos coletivos, o movimento passa por tornar visível o que tende a ficar fora do campo de visão.
Para quem trabalha com ele há anos, esta capacidade não se esgota na observação. Como lembra Ana Sanchez, não se trata de alguém movido pelo protagonismo ou pela centralidade institucional. “Não é o protagonismo que lhe interessa. Interessa-lhe mesmo ver as coisas feitas”, afirma. A dinâmica entre ambos começa muitas vezes com uma ideia inicial de António Granado, quase uma faísca, que depois é trabalhada em conjunto até se transformar em estrutura.
“Ele tem assim uma faísca e depois nós vamos operacionalizando e as coisas acontecem”, resume Ana Sanchez. Mais do que uma iniciativa isolada, trata-se de uma forma de ação: uma passagem rápida da ideia à concretização, sustentada por uma capacidade de mobilizar pessoas, redes e soluções para que os projetos avancem.
No fim, mais do que um percurso individual, o que se desenha é um papel na memória coletiva da comunicação de ciência portuguesa. António Granado ajudou a criar as condições para que hoje a comunicação de ciência tenha a forma e dimensão que tem. E talvez por isso continue a parecer, no meio do SciComPt2026, alguém que observa mais do que ocupa.