← Voltar às notícias

Cartas com Ciência: na era digital, cartas em papel levam ciência – e equidade – em língua portuguesa a jovens de vários países

A "Cartas com Ciência" é uma associação que nasceu com o objetivo de fazer chegar ciência a jovens de vários países através de cartas escritas por investigadores em língua portuguesa. Mariana Alves, membro da direção da Cartas com Ciência conta como nasceu e para onde caminha o projeto. Por Joana Barbosa (texto e imagem)

O tema central do SciComPt2026 evoca o passado como forma de abrir caminho para o futuro, num contexto digital pleno de desafios. Neste contexto, a "Cartas com Ciência" é uma associação que traz de volta o já quase esquecido costume de enviar cartas, com um propósito atual e cheio de significado: combater desigualdades através da ciência, promovendo também a língua portuguesa.

Mariana Alves, membro da direção e co-fundadora da Cartas com Ciência, veio ao SciComPt 2026 participar num painel, a convite do Experimenta Oeiras, para falar sobre as formações promovidas pela Cartas, no seguimento de uma comunicação já apresentada no congresso do ano passado.

Mariana Alves, membro da direção e co-criadora da Cartas com Ciência. Joana Barbosa/Redação SciComPt 2026
Mariana Alves, membro da direção e co-criadora da Cartas com Ciência. Joana Barbosa/Redação SciComPt 2026

Com formação académica nas áreas da Bioquímica e da Biologia Molecular, o interesse pela comunicação de ciência começou durante a licenciatura: “Fiz parte da rádio Universidade de Coimbra, tinha um programa na rádio chamado ‘Conselho Científico’, entrevistei várias pessoas”. Mariana participou igualmente na revista dos estudantes de bioquímica, sendo responsável por conduzir entrevistas para uma coluna da revista, e em outros projetos, como a Maratona da Saúde.

Assim começou “devagarinho”, mas durante o doutoramento o “gosto pela comunicação de ciência, foi-se desenvolvendo para direções diferentes e chegou um momento em que para mim já só era interessante ou significativo ou motivante se fosse comunicação de ciência feita para a justiça social ou com foco na equidade”.

Cartas com Ciência: organização com o objetivo de combater desigualdades através da ciência, promovendo também a língua portuguesa. Cartas com Ciência
Cartas com Ciência: organização com o objetivo de combater desigualdades através da ciência, promovendo também a língua portuguesa. Cartas com Ciência

Alinhada com este pensamento, nasce a ideia da "Cartas com Ciência", cuja equipa é composta por cerca de 30 pessoas, a direção é composta por 6 pessoas de vários países, “e é algo criado coletivamente”. “A inspiração para a criação da Cartas com Ciência foi um programa chamado “Letters to a pre-scientist” dos Estados Unidos da América, no qual faziam trocas de cartas entre cientistas de todo o mundo e jovens estadunidenses em contextos de baixo rendimento. Juntamento com Rafael Galupa, também membro da direção da Cartas, Mariana participou neste programa e viram uma oportunidade “enorme nos 250 milhões de pessoas falantes de língua portuguesa” como espaço para permitir uma troca a nível global. “Foi assim e só graças ao envolvimento das pessoas cientistas, professoras e da equipa que conseguimos chegar aqui” completa, no ano em que a Cartas com Ciência completou o seu 6º aniversário.

A Cartas com Ciência é uma associação feita de pessoas e para pessoas. Todos os elementos das equipas trabalham em regime de voluntariado e a equipa está sempre à procura de crescer, em busca de financiamentos e de novos parceiros, membros e correspondentes. Sobre o projeto, Mariana resume: “A Cartas com Ciência usa a Ciência como ferramenta para combater desigualdades”. “A nossa missão é que cada pessoa jovem encontre o seu valor na ciência e no conhecimento, em língua portuguesa, neste caso”, conclui.

Participação de Mariana Alves na sessão completa "Estratégias de Inclusão e equidade na comunicação de ciência e ciência cidadã". Joana Barbosa/Redação SciComPt 2026
Participação de Mariana Alves na sessão completa "Estratégias de Inclusão e equidade na comunicação de ciência e ciência cidadã". Joana Barbosa/Redação SciComPt 2026

Com cerca de 800 cientistas e mais de 1000 jovens participantes em Portugal, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné, Angola, Moçambique, Brasil e Timor-Leste, a Cartas com Ciência leva “muito a sério, não só a parte da intervenção, mas também a pesquisa sobre a intervenção de forma a avaliar o impacto dos programas e gerar novo conhecimento na numa área em que ainda falta explorar muitas questões sobre a educação em ciência, comunicação de ciência, nestes vários contextos que são muito diversos”. Entre os vários estudos que vão realizando no acompanhamento dos vários programas, um dos principais impactos prende-se com o facto de “crianças e pessoas jovens parecem desconstruir um pouco a imagem do que é uma pessoa cientista para algo menos distante e mais próximo delas”. Além dos programas de trocas de cartas, com a duração habitual de 1 ano letivo, a Cartas com Ciência aposta também na formação de professores que estão com os alunos, de forma a terem um impacto “com maior longevidade”. As medidas do impacto não se prendem em grandes números mas em impactos reais: “Não andamos à procura de métricas do género ‘quantos alunos que participaram na Cartas vão depois para a universidade’, porque não é esse o nosso foco.” O que importa é que “tenham uma experiência que tenha significado e que sintam que a ciência também pode ser para si, nestes dias e nestes locais”.

Apesar de estarem ainda a desenvolver estudos estruturados para avaliar o impacto deste lado: “As pessoas cientistas reportam que este é um programa diferenciado no sentido do apoio que a Cartas dá ser sempre direcionado com a equidade como tema central.” Algumas pessoas já faziam comunicação de ciência, para outras foi a primeira vez, mas a troca de cartas “torna a coisa mais emocionante, além do intercambio entre pessoas que estão em países diferentes, o que é muito enriquecedor”. “Os cientistas aprendem muito com as pessoas jovens com quem trocam cartas”, conclui.

De uma perspetiva muito pessoal, Mariana conta que “sempre fui muito emocionante ler as cartas (nós [direção] temos que ler as cartas todas) tanto de pessoas jovens como pessoas cientistas, e pensar como respondem de forma tão generosa e aberta”. Partilha que há vários momentos ao longo do seu percurso na Cartas com Ciência que a marcaram, mas entre eles, destaca uma visita que fez a um professor de Campinas, no Brasil, no âmbito de uma apresentação da associação: “o professor Guilherme Barbosa, foi nosso cientista [correspondente] e começou um projeto chamado Cartas Exploratórias com Ciência, inspirado na Cartas com Ciência, mas para trabalhar em Campinas”. Este professor partilhou com Mariana, ainda emocionado, que no final do seu pós-doutoramento, enquanto procurava emprego e respondia a várias entrevistas, “partilhou isso com o seu jovem correspondente de Cabo Verde” e que este respondeu dando-lhe “força, ao dizer que as entrevistas iam correr bem”. “Eu achei bonito, e foi uma história que eu só conheci quando visitei agora [Campinas].”

Mariana diz que “a Cartas ensinou muito sobre a equidade”. “Quando digo Cartas parece abstrato, mas na verdade estamos a falar das pessoas com que trabalhei, desde a equipa, pessoas professoras”. Num tempo em que tudo se mede pela sua grandeza e o impacto se mede em números, é necessário “aprender a valorizar as expressões de impacto mais pequenas ou mais do momento e não números gigantes”. E termina com a aprendizagem mais importante que leva da Cartas: “os nossos programas praticam muito o hábito da atenção, num mundo em que é tudo muito rápido e é difícil parar para dar atenção”. “No final, o mais importante de tudo são mesmo os afetos e as relações que criamos com as pessoas. A atenção e os afetos são 2 conceitos que têm estado muito na mente e eu acho que fazer parte da Cartas com Ciência me ensinou isso.”

Mariana conta também como foi importante a nomeação para integrar a lista da Euclid Network que destaca 100 mulheres na Europa no setor do empreendimento social, a nível pessoal, mas, principalmente, porque “sobretudo, era um reconhecimento para a Cartas com Ciência”. Este prémio europeu “foi um momento de grande visibilidade para a Cartas, que tinha acabado de começar”, mas que, desde então já ganhou também vários prémios enquanto associação, como o 2.º Lugar no Prémio Go Green Go Social (2021) no concurso de Melhor Ideia de Negócio da NOVA FCSH; 1º lugar na 1ª Edição do Programa Comunitário GAMMA (2023); e mais recentemente 1º lugar do 1º Concurso do Programa de Fundo de Apoio a Pequenos Projetos (FAPP) (2024).