
“Ação!”.
A palavra ecoou na Biblioteca de Belas Artes da Universidade de Évora e, por instantes, a sala deixou de ser apenas espaço de congresso para se transformar em palco, laboratório e lugar de encontro. Assim começou a mesa-redonda “Quando a ciência sobe a palco”, integrada na SciComPt2026, a 27 de maio, numa sessão que cruzou storytelling, dança, teatro, marionetas e sistemas interativos para explorar os formatos performativos enquanto “espaços férteis” de comunicação e reflexão científica.
“A ciência pode ser uma fonte de inspiração para as artes, mas as artes também podem abrir novas formas de pensar a própria ciência”, resumiu Miguel Araújo, investigador da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, cujo trabalho cruza engenharia, teatro, marionetas e sistemas interativos.
Ao lado de Miguel Araújo participaram também Catarina Miranda, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, e Mário Montenegro, diretor artístico da companhia de teatro ‘Marionet’. Juntos, conduziram uma conversa feita de “corpo”, “voz”, “ritmo” e “emoção”, mostrando como “diferentes linguagens artísticas podem aproximar a ciência das pessoas”.
Partindo da sua investigação em neurociências e terapias avançadas, Catarina Miranda apresentou um projeto que utiliza a dança para interpretar a experiência da doença neurodegenerativa. Através da coreografia, explicou, procura traduzir sensações difíceis de verbalizar, como a perda de orientação, o desequilíbrio ou a fragilidade motora.
“Há coisas que nem sempre conseguimos explicar por palavras. O corpo consegue comunicar dimensões da doença que, muitas vezes, escapam ao discurso científico”, afirmou. “A dança permite-nos mostrar sofrimento, vulnerabilidade, mas também esperança.”
No mesmo sentido, Mário Montenegro destacou o potencial do teatro enquanto espaço de encontro entre diferentes áreas do conhecimento. “O teatro cria espaços de encontro improváveis. Aproxima pessoas, disciplinas e formas de olhar o mundo que normalmente não se cruzam”, referiu.
“Quando colocamos ciência em cena, não estamos apenas a explicar conceitos. Estamos a criar experiências”, reforça Mário Montenegro.
A experiência acabou por marcar o ritmo da sessão. Num dos momentos da mesa-redonda, nove participantes da audiência assumiram o papel de investigadores, técnicos e personagens improvisadas num “dia no laboratório”. Entre gestos, diálogos e objetos imaginados, a fronteira entre palco e plateia dissipou-se. A sala reagiu, riu e entrou ‘em cena’.
“Foi uma palestra muito imersiva”, partilhou Carolina Sousa, participante da sessão e investigadora do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR). “De repente, deixamos de estar só a ouvir. Passamos a fazer parte da própria narrativa, e isso torna a comunicação muito mais próxima e memorável”.
Em linha com dois dos pilares da SciComPt2026 - memória e identidade -, a sessão refletiu sobre a forma como as práticas artísticas e performativas podem integrar dimensões culturais, sociais e emocionais na construção do conhecimento científico. O palco afirmou-se, assim, não apenas como espaço de representação, mas também de experimentação, diálogo e co-criação.
No final, coube ao público resumir a experiência em três palavras: “Encontro”, “Encanto” e “Partilha”.