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Ciência em movimento: jogos, modelos e redes de borboletas aproximaram público e investigação na SciComPt2026

A exposição de demonstrações transformou os claustros da Universidade de Évora num percurso de experiências interativas, onde investigadores testaram diferentes formas de comunicar ciência junto dos participantes. Por Andreia Pasadas e Teresa Gonçalves (Texto e imagem).

Claustros do Edifício Espírito Santo da Universidade de Évora
Claustros do Edifício Espírito Santo da Universidade de Évora

Nos Claustros do Edifício Espírito Santo da Universidade de Évora, a ciência circulou de mesa em mesa, entre modelos geológicos, jogos de tabuleiro, peças tácteis e redes levantadas no ar para apanhar borboletas de papel. Na tarde de 27 de maio, a exposição de demonstrações da SciComPt2026 transformou o centro da universidade num espaço de experimentação contínua, onde investigadores e participantes se cruzavam em conversas improvisadas e atividades práticas pensadas para “aproximar temas científicos complexos do público”.

Ao longo do claustro, estudantes, investigadores e visitantes percorriam as diferentes bancadas, alternando entre perguntas, desafios e pequenas experiências interativas. Em cada demonstração, o objetivo repetia-se sob formas distintas: encontrar novas maneiras de comunicar ciência através da participação direta.

Numa das mesas da exposição, o jogo “Genopoly: A investigação em cancro explicada às crianças” desafiava os participantes a percorrer o caminho da investigação científica através de perguntas, tarefas e simulações. A atividade, dinamizada por Vânia Gonçalves, investigadora do Departamento de Genética Humana do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, utiliza estratégias de gamificação para explicar a investigação em cancro a crianças a partir dos 10 anos. “No entanto, acreditamos que seja fundamental explicar a importância da investigação científica para que percebam como chegamos ao conhecimento de como surgem, se desenvolvem e podem tratar-se os vários tipos de cancro".

À volta do tabuleiro, discutiam-se testes genéticos, mutações e investigação biomédica, enquanto o jogo servia de ponto de partida para conversas sobre o funcionamento da ciência e o percurso da investigação até à aplicação clínica. “Este tipo de dinâmica possibilita um maior envolvimento do público e cria espaço para discutir não apenas os resultados, mas também a forma como a ciência é feita e porque é importante investir em investigação”, acrescentou a investigadora.

Mais adiante, a conservação da natureza era explorada através de atividades multissensoriais dinamizadas pela equipa da Unidade de Biologia da Conservação da Universidade de Évora. Sob o mote “só se protege o que se conhece”, Ana Sampaio apresentava diferentes jogos e objetos tácteis centrados na biodiversidade.

Quando Anaís Guerra, comunicadora de ciência no Centro de Ciência do Mar e do Algarve, se preparava para sair foi surpreendida com uma bomba de ar que lançou uma dezena de borboletas de papel sobre o público, levando vários participantes a erguer rapidamente as redes numa tentativa improvisada de captura. Entre risos, movimentos apressados e borboletas a sobrevoar o claustro, a atividade interrompeu momentaneamente o ritmo tranquilo da exposição e atraiu curiosos para junto da demonstração.

“Há uma grande diversidade de temas e de formas de comunicar ciência”, afirmou Anaís Guerra. “Ter contacto com projetos tão diferentes permite-nos observar outras abordagens, perceber o que resulta na interação com o público e sair daqui com vontade de experimentar formatos novos nas nossas próprias atividades”, acrescentou, referindo ser a sua primeira participação no evento.

Exposição: "7 anos NEI: atividades multissensorial ao serviço da conservação da natureza"
Exposição: "7 anos NEI: atividades multissensorial ao serviço da conservação da natureza"

A ciência explicada em contacto direto com o público

A poucos metros dali, frascos transparentes preenchidos com diferentes materiais geológicos simulavam reservatórios subterrâneos de armazenamento de dióxido de carbono. A demonstração “Como comunicar o armazenamento de CO₂? Modelos que fazem a diferença”, apresentada por Ana Pinho e Pedro Pereira, investigadores das Ciências da Terra da Universidade de Évora, procurava explicar o processo de captura e armazenamento geológico de carbono desenvolvido no âmbito do projeto europeu PilotStrategy.

“Convidamos os participantes a explorar as características de um reservatório de CO₂ viável”, explicou Pedro Pereira, enquanto os visitantes observavam as diferentes camadas representadas nos recipientes. “Os modelos representavam camadas geológicas impermeáveis e reservatórios naturais capazes de armazenar CO₂ em profundidade, ilustrando o funcionamento de um teste piloto que estamos a desenvolver em Portugal”, revelou o investigador. A demonstração permitia visualizar processos “normalmente invisíveis à escala humana”, recorrendo a materiais simples para explicar conceitos ligados à transição energética e à mitigação das alterações climáticas.

“Muitas vezes trabalhamos na organização ou na componente científica destes eventos e raramente temos oportunidade de os experienciar enquanto participantes”, refletiu Rute Dionísio, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB NOVA). “Aqui conseguimos parar, observar o trabalho de outras áreas, conversar com quem está a comunicar ciência de formas diferentes e perceber como essas abordagens também podem inspirar o nosso trabalho”.

Ao final da tarde, os claustros mantinham o mesmo movimento de pessoas que circulavam pelas mesas, redes e modelos que marcaram toda a exposição. Entre demonstrações práticas e conversas informais, a circulação constante pelo espaço acabou por desenhar um percurso comum: o da ciência explicada em contacto direto com o público.