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Ciência para todos: arte, escolas e tecnologia procuram formas de quebrar barreiras

Da arte urbana da Cova da Moura às salas de aulas inovadoras, passando por crianças a desenhar cientistas com base em estereótipos. As iniciativas apresentadas no SciComPt2026 procuram democratizar o acesso à ciência. Em 15 minutos conhecemos cinco projetos que unem arte, tecnologia e educação como forma de aproximar a ciência da sociedade. Por Helena Paulino

Benilde Pondeca quer levar a ciência a todas as crianças desfavorecidas. Bruna Campos
Benilde Pondeca quer levar a ciência a todas as crianças desfavorecidas. Bruna Campos

Num país onde a ciência continua com barreiras de acesso, desigualdades sociais e estereótipos persistentes, investigadores, educadores e comunicadores de ciências estão a reinventar a forma como o conhecimento chega às comunidades. Num dos blocos de comunicações desta quarta-feira, 27 de maio, foram apresentados cinco projetos que revelam um ecossistema de transformação na comunicação de ciência, onde a arte, a tecnologia, a educação e a participação comunitária se cruzam para construir novas formas de comunicar e garantir o acesso de todos à ciência. São projetos que pretendem democratizar o acesso ao conhecimento e que provam que a ciência pode - e deve - ser mais inclusiva, mais próxima e mais humana.

Universidade de Évora, um campus que se confunde com a universidade

Silvano Silva, estudante de doutoramento de arquitetura na Universidade de Coimbra, apresentou uma leitura singular sobre a refundação da Universidade de Évora, destacando-a como um "caso raro" no panorama académico contemporâneo: uma universidade que cresce integrada na própria cidade.

“A maioria das universidades contemporâneas desenvolve-se através de modelos espacialmente autónomos, campos concentrados, delimitados e frequentemente separados das cidades. No entanto, a Universidade de Évora desenvolveu-se através da reocupação de edifícios no centro histórico da cidade e a instalação de outros equipamentos nas áreas mais periféricas."

E daqui resulta uma rede universitária mais dispersa mas bastante consolidada na malha urbana da cidade de Évora. Silvano Silva considera importante estudar os "modelos de implantação universitária e as relações da universidade com a cidade onde está inserida". Assim torna-se possível perceber a evolução da universidade em completa interação com a área urbana, e de que forma o conhecimento produzido na academia fica mais visível, acessível e integrado na vida pública da cidade.

Para sustentar esta informação foi feito um estudo com uma análise qualitativa, tendo por base a análise documental, a leitura arquitetónica, a cartografia comparada e o cruzamento entre edifícios universitários. Apesar do estudo ainda não estar concluído, os resultados iniciais indicam "que a dispersão territorial da universidade reforça a sua presença no quotidiano urbano, havendo uma interação sólida entre património, vida académica e espaço público."

Desenhar ciência nas paredes

Benilde Pondeca mostrou o Science of the Walls, um projeto inovador que “pretende combater a desigualdade que existe no acesso à ciência, sobretudo nos contextos mais desfavorecidos socialmente”. Esta aproximação é feita, como indicou a investigadora da Fundação Champalimaud, “através da aproximação da arte à ciência”.

O nome surgiu depois de uma visita de cientistas da Fundação Champalimaud à Cova da Moura, onde “descobriram que existia muita arte urbana feita nas paredes". "Partindo disto, decidiram juntar a arte que se faz na Cova da Moura com a ciência, e assim nasceu o projeto Science on the Walls”.

E deu um exemplo: “Reunimos as crianças de um grupo de dança e explicamos toda a ciência por detrás do movimento. Elas começaram a perceber como é que cada um dos seus dotes e dos seus movimentos cria o movimento”.

O que preocupa este grupo internacional de cientistas é que as crianças mais desfavorecidas socialmente não têm acesso à ciência, “não sonham sequer em seguir uma carreira científica". Para tentar colmatar esta realidade e para aproximar a ciência às comunidades, organizaram visitas ao Oceanário e ao Jardim Zoológico, campos de férias e atividades criadas com cientistas. Benilde Pondeca referiu que é importante que estas crianças percebam "que existem muito mais do que elas conhecem na sua comunidade”.

O Science of the Walls - que se tornou numa associação há algumas semanas - envolve uma equipa internacional de cerca de 100 cientistas (de 20 nacionalidades), 100 artistas e já envolveu mais de 300 crianças. Os resultados deste projeto mostram que se verifica um aumento da curiosidade, da apropriação de conceitos científicos e do envolvimento comunitário.

Centros de ciência: ecossistema de formação para docentes

Os centros de ciência podem desempenhar um “papel estratégico na formação de professores e na promoção da comunicação científica.” Esta ideia foi apresentada no SciComPt2026 por Paulo Menezes, da Universidade Federal de Juiz de Fora no Brasil. Apresentou um estudo onde se evidencia que "os processos de criação de novas propostas pedagógicas podem fortalecer o ensino e melhorar a forma criativa como os professores ensinam ciência".

Paulo Menezes chamou a atenção para os desafios atuais enfrentados pelos professores nas áreas das ciências, marcados por atualizações constantes e pelo isolamento na preparação de conteúdos mais criativos e dialogantes, que possam captar a atenção de um público cada vez mais exigente em termos visuais. Inspirado na Teoria da Ação Dialogante de Paulo Freire, este projeto aposta na construção coletiva do conhecimento, na colaboração entre pares e na reflexão crítica sobre a prática pedagógica.

Esta iniciativa envolveu nove professoras de Ciências do ensino básico em encontros formativos no Centro de Ciências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), no Brasil. As sessões foram “muito participativas, onde foram discutidos os desafios reais mais frequentes nas salas de aula, e cocriaram soluções pedagógicas, incluindo a construção de brinquedos científicos”. E isto originou uma maior confiança profissional, através da aquisição de estratégias de ensino diversificadas e uma aposta na cultura de aprendizagem coletiva.

O centro de ciência surge, assim, como "o parceiro estratégico" na formação docente que consegue aproximar a educação, a divulgação científica e as práticas pedagógicas inclusivas. No final enumerou ainda exemplos de atividades elaboradas no centro de ciências como a Joaninha Teimosa, o Boneco Equilibrista, a Lata Maluca, o Carro Movido a Ar, o Disco Flutuante, entre outros.

Os cientistas vistos pelo olhar das crianças

Sara Michels falou-nos do papel das linguagens nas representações de cientistas por crianças. "Muitas das crianças têm, realmente, imagens estereotipadas da ciência: um homem, de bata branca, de óculos, com os cabelos em pé, a trabalhar num laboratório. Isto tem consequências reais começando pela visão estereotipada que as crianças têm pela ciência”. Pode também ter consequências no insucesso escolar.

A representante do projeto falou-nos do papel das linguagens nas representações de cientistas por crianças. Segundo um inquérito elaborado pela Native Scientists a 500 crianças, quando questionados para desenharem um cientista desenham sempre um homem cientista com os cabelos em pé.

Citando o Draw-A-Scientist Test (DAST) - uma metodologia que surgiu em 1983 que permite identificar através de desenhos as percepções das crianças sobre os cientistas -, mostrou que a grande maioria das crianças representa os cientistas de forma estereotipada. A Native Scientists fez algo novo, dando instruções neutras em género e número a "cerca de 500 crianças de diversas regiões de Portugal" As indicações eram: faz um desenho que transmita o que sabes sobre os cientistas e o seu trabalho. E os resultados foram surpreendente segundo nos conta Sara Michels: “Cerca de 20% dos desenhos incluíam mais do que um cientista e nestes casos observamos uma maior diversidade de género, mas as caraterísticas estereotipadas mantiveram-se com uma predominância maioritária de cientistas homens”.

Este inquérito permite concluir que “o estereótipo está presente nas nossas crianças mesmo com um enunciado mais neutro em género, por isso é importante trabalhar a ciência como uma atividade diversa e colaborativa, sabendo que isto vai ter um impacto na igualdade de oportunidades.”

IAedu: nova porta de entrada para a IA

Raquel Alfredo apresentou a recentemente criada Unidade de Serviços Digitais da EDU - IAedu. Trata-se de um ecossistema digital que reúne vários modelos de Inteligência Artificial (IA), promovendo a literacia em IA e que pode ser adotado por universidades, centros de investigação e outras instituições académicas.

O investigador explicou que "o IAedu é um serviço digital da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, desenvolvido pela FCCN, e concebido para responder às necessidades da comunidade académica e científica." O acesso é gratuito e "promove uma utilização de todos os modelos de linguagem de IA mais equitativo, eficiente e responsável". Raquel Alfredo esclareceu que "o IAedu é um serviço digital da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, desenvolvido pela FCCN, e concebido para responder às necessidades da comunidade académica e científica."

Apesar de estar operacional há pouco tempo, a plataforma já regista um crescimento significativo no número de utilizadores e entidades aderentes. Funcionários, investigadores e membros externos podem aceder ao sistema através das suas credenciais institucionais, garantindo segurança e privacidade. O investigador respondeu ainda à preocupação de muitas instituições, garantindo que “todos os dados introduzidos permanecem dentro da plataforma e não são utilizados para treinar modelos externos”.

Uma das funcionalidades mais destacadas é a criação de agentes personalizados, que podem ser configurados através de documentos, prompts especializados e objetivos específicos. Estes agentes podem ser privados ou públicos, facilitando a partilha de conhecimento dentro das equipas.

A sessão terminou com um apelo à formação contínua e à adaptação das instituições ao novo paradigma digital, reforçando que a plataforma continuará a evoluir nos próximos meses.