Nesta sessão de comunicações breves, sete oradores foram desafiados a apresentar, em apenas três minutos, projetos de comunicação de ciência pensados para o ambiente digital. O formato revelou não só a diversidade de iniciativas em curso, mas também uma tendência clara: a aposta em conteúdos curtos, informais e adaptados às lógicas das redes sociais, procurando aproximar a ciência de diferentes públicos.

Adaptar a ciência às redes
Para abrir a sessão, Bárbara Rodrigues, apresentou a Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação (ARDITI), na Madeira, cujo trabalho se baseia num diagnóstico simples: os conteúdos institucionais de ciência tendem a ser pouco ajustados às redes sociais, com formatos pouco dinâmicos e reduzida acessibilidade para públicos não especializados.
A resposta passou pela aplicação de princípios de marketing digital, comunicação visual e produção de vídeo, com aposta em formatos curtos, coerência visual e uma linguagem mais simples, sem perda de rigor. Esta adaptação ao ecossistema digital permite aumentar a resposta orgânica do público e aumenta a valorização social da ciência.

All in the family - a ciência em família nas redes sociais
Joana Wilton apresentou o projeto autoral “Prima, tás de Bata” (@primatasdebata), uma iniciativa presente no Instagram e TikTok que procura comunicar ciência ao público leigo e combater a desinformação através do humor e da cultura popular. O projeto inclui diferentes formatos e rubricas, entre as quais a “Família de Batta”, inspirada na série televisiva “All in the Family”, onde temas científicos são discutidos através de arquétipos familiares: a Prima Cientista, o Avô Céptico, a Tia Crédula e o Sobrinho Apático.
A criadora destacou o uso de linguagem acessível, narrativas quotidianas e contextos informais como estratégias de humanização da ciência e de aproximação ao público. Terminou com uma reflexão sobre os limites das métricas de engagement para avaliação de impacto de projetos nas redes sociais, sublinhando que nem sempre se traduzem em impacto real ou mudanças de comportamento.

Já se perguntaram se os nossos familiares sabem o que andamos a fazer?
Foi assim que João Gaspar introduziu o projeto “Science Family”, um podcast de seis episódios que convida familiares de estudantes de doutoramento da Universidade de Coimbra a explicar, pelas suas próprias palavras, o tema da investigação dos seus parentes.
Desenvolvido pelo Centre for Functional Ecology (CFE) e pelo Centro de Química de Coimbra (CQC), o projeto cruza áreas como ecologia, síntese de fármacos ou produção de detergentes, usando a família como porta de entrada para explicar ciência de forma simples e interativa. Com testemunhos de várias gerações, Science Family cruza histórias pessoais, memórias e afetos, criando um espaço onde a ciência se torna mais próxima, compreensível e partilhada. Este formato procura desconstruir a ideia de que a ciência é distante ou inacessível, contribuindo para a valorização social e para a construção de um património coletivo do conhecimento científico.

Os “o quê?” da ciência
Cristina Quintelas apresentou a rubrica “Q? – A resposta está na Ciência”, desenvolvida pelo Centro de Engenharia Biológica (CEB) da Universidade do Minho, em parceria com o Agrupamento de Escolas do Freixo em Ponte de Lima. O conceito é simples: crianças e jovens perguntam, os investigadores respondem. É desta maneira que conceitos científicos, muitas vezes inspirados em situações do dia-a-dia, são explicados de forma clara e acessível, através da produção de vídeos curtos que são divulgados nas redes sociais.
A iniciativa que conta já com seis episódios valoriza a curiosidade dos mais novos e o papel ativo dos investigadores na comunicação de ciência, contribuindo para desmistificar a ciência e promover uma cultura científica mais próxima, participativa e inclusiva.

Unificar a ciência do mar
Joana Dionísio apresentou a plataforma MYOCEAN.NET, um projeto dedicado à organização e divulgação da informação científica sobre o mar em Portugal. O site reúne conteúdos sobre investigação, protagonistas e projetos ligados às ciências do oceano, procurando tornar este conhecimento mais acessível a diferentes públicos.
A iniciativa foi apresentada como resposta ao desafio de comunicar ciência num contexto de excesso de informação e desinformação, apostando na credibilidade e na curadoria de conteúdos. Destaca a ciência do mar como parte integrante da identidade cultural, defendendo a sua comunicação como reflexo dos contextos sociais, territoriais e culturais portugueses.
O projeto foi distinguido internacionalmente pelo seu contributo para a literacia científica e ambiental, através do Prémio Campeão do Conhecimento nos Forbes Green ESG Awards e do endosso da Década das Nações Unidas das Ciências do Oceano para o Desenvolvimento Sustentável.

Como tornar a ciência mais cidadã?
Rute Dionísio apresentou a estratégia de comunicação nas redes sociais do programa “Ciência + Cidadã” (C+C), desenvolvido pelo ITQB NOVA e pelo Município de Oeiras. O programa, que pretende incentivar o envolvimento e participação dos cidadãos na ciência, conta atualmente com 11 projetos e visa promover uma ciência aberta, acessível e socialmente relevante.
A comunicação digital do projeto é centrada na dimensão humana e colaborativa da investigação, privilegiando o storytelling e os testemunhos reais de cidadãos e investigadores, transmitindo a ideia de que todos podem fazer ciência. Rute destacou também a importância da parceria com o município de Oeiras que, através da co-publicação de conteúdos, permite o alcance de públicos mais diversos.

Mas afinal os arqueólogos não escavam dinossauros?
Susana Nunes apresentou o projeto “Os arqueólogos não escavam dinossauros” (@naoescavamdinossauros), que procura combater mitos relacionados com a Arqueologia. A iniciativa surge do desfasamento entre a prática arqueológica e a sua perceção pública, frequentemente marcada por estereótipos, como a descoberta e escavação de dinossauros.
É um projeto de educação e mediação patrimonial da Palimpsesto que dá a conhecer a profissão de arqueólogo a um público não especialista, contribuindo para a valorização e reconhecimento da profissão.
Para aproximar a Arqueologia da sociedade, aposta na conceção e dinamização de atividades educativas para públicos escolares, como encontros, oficinas e seminários. Estes eventos são divulgados através do Instagram e Facebook, complementados por quizzes, desafios, e publicações de conteúdos científicos, promovendo literacia patrimonial e combatendo a desinformação.


Esta sessão, moderada por Sílvio Mendes, evidenciou diferentes estratégias de adaptação da comunicação de ciência ao ecossistema digital. Destacaram-se linhas comuns como a exploração de formatos curtos, narrativas de proximidade e familiaridade, e estratégias de envolvimento com públicos diversos. Ficou clara a diversidade de caminhos possíveis para atingir um objetivo comum: tornar a ciência mais acessível, compreensível e presente no quotidiano das pessoas.