À medida que deixávamos a cidade de Évora para trás, o Alqueva surgia diante de nós até onde a vista alcançava, num abraço silencioso entre a água e a paisagem. O espelho tranquilo do rio refletia o céu e envolvia-nos numa serenidade difícil de descrever.
Permanecemos ali por instantes, contemplando aquela imensidão como quem observa uma obra de arte viva. Foram minutos de rara beleza, capazes de inundar a alma de calma e fazer esquecer o ritmo preenchido do dia.

Continuámos o percurso passo a passo, sob um calor suave do fim de tarde e um brisa agradável. A subida da colina fez-se lentamente, enquanto o azul intenso do céu permanecia limpo, sem que as nuvens ousassem interromper aquela perfeição. No alto, erguiam-se as muralhas, sólidas e intemporais, guardiãs silenciosas de séculos de história e de memórias entrelaçadas nos seus caminhos de pedra.
Entre os participantes ecoavam conversas e sorrisos, que se misturavam com o encanto da subida. A paisagem convidava-nos a entrar, não apenas na aldeia, mas também numa outra dimensão temporal.
Ao atravessarmos as muralhas, entramos em Monsaraz — uma aldeia profundamente marcada pela história. Conquistada aos mouros em 1167 por Geraldo Sem Pavor, desempenhou um papel estratégico na proteção de Évora. Foi conquistada em 1223, por D. Sancho II com o auxílio dos Templários, importante ordem militar de Cavalaria da igreja Católica, deixando em Monsaraz uma forte marca da reconquista cristã.
Localizada no Largo D. Nuno Álvares Pereira, a Igreja de Igreja de Nossa Senhora da Lagoa, datada do século XVI, ergue-se como um símbolo do repovoamento cristão. A própia dimensão invulgar da igreja - face à restante arquitetura do centro da aldeia - tem história: a sua construção surge num contexto marcado pelas dificuldades da Idade Média e pelos efeitos devastadores da Peste Negra, quando as reduzidas dimensões da antiga igreja já não permitiam acolher o elevado número de mortos.

Mas Monsaraz vive também das suas lendas e mistérios. Conta-se que uma moura encantada vagueava pelas ruas à procura de quem a libertasse, prometendo em troca o tesouro da sua família. Para a libertar, um homem teria que chegar à outra margem do rio Guadiana com duas lamparinas acesas.
Ali, tudo parece suspenso no tempo: é um verdadeiro museu ao ar livre, perdido no coração do Alentejo. As ruas de xisto, o branco das casas e o silêncio das muralhas conferem à aldeia uma beleza autêntica e intocada. “Parece que entrámos numa máquina do tempo”, ouve-se um dos participantes do SciComPt dizer enquanto se dirige para o castelo. “É como abrir uma janela para outro mundo”, diz outro.

No castelo, de arquitetura militar, percorremos as muralhas num espírito de convívio e partilha de conhecimento. O ambiente é convidativo a mais uma foto ou a uma conversa sobre a beleza da paisagem, onde o olhar se perde e a imaginação flui para os tempos medievais.
O castelo foi crucial para a defesa do território português; a poucos quilómetros de Espanha, assumia funções de vigilância e proteção da fronteira.

E isto é Monsaraz. Uma aldeia mítica de beleza única, tantas vezes evocada no cante alentejanos, que a define como a varanda do Alqueva — “por onde espreito até onde a vista me leva”. Mantendo-se, ao longo dos séculos, como a fusão perfeita entre o céu, a terra e a memória, deixando em todos nós uma nova recordação a cada visita.