
O acidente nuclear de Palomares, em Espanha, em 1966, é uma oportunidade de reflexão sobre a tensão entre transparência, secretismo e interesses políticos na comunicação de ciência. A queda de quatro bombas - três em terra e um no mar Mediterrâneo, desencadeou uma crise diplomática entre os Estados Unidos e Espanha.
De acordo com Clara Florensa, investigadora do Conselho Superior de Investigações Científicas, em Espanha, a gestão da informação, incluindo a científica, foi tão importante quanto a própria resposta ao acidente. Primeiro, instalou-se uma política de silêncio - o tema foi censurado na imprensa espanhola. Depois, a divulgação na imprensa norte-americana obrigou à adoção de uma nova estratégia. A necessidade de manter um sentimento positivo em relação aos Estados Unidos e ao nuclear, bem como a preservação do setor turístico da região competiram com a veracidade científica, na leitura da investigadora.

Durante a sessão, Florensa expôs algumas das formas como a ciência foi manipulada para tranquilizar a população, do discurso político e jornalístico à publicidade. Uma das formas engenhosas foi a famosa foto do banho no mar do ministro espanhol Manuel Fraga com o embaixador norte-americano Angier Biddle Duke. Para mostrar que Palomares era seguro e encorajar o turismo, apenas dois meses após o incidente, os dois diplomatas deixaram-se fotografar durante um banho na costa desta cidade num frio dia de Março.
Outros dos exemplos apresentados foi o uso de medidores de radiação de corpo inteiro. Na época, foram divulgados como a tecnologia mais avançada para medir a exposição à radiação. A população testou consistentemente livre de radiação.
Mas havia uma problema: estes equipamentos não medem o tipo de radiação emitida pelo plutónio, o principal elemento radioativo nestas bombas nucleares. Ainda assim, mesmo passadas seis décadas desde o desastre, os habitantes de Palomares continuam a realizar controlos regulares de contaminação. Deslocam-se anualmente a Madrid para avaliações radiológicas, voluntariamente, porque ainda acreditam na sua capacidade.
Pode surpreender, ou não, que o episódio permanece relativamente ausente da memória coletiva espanhola. Segundo Florensa, a estratégia de comunicação foi tão eficaz que, ao longo dos anos, a maioria já se esqueceu. “Há pessoas que só se lembram de uma bomba ter caído no mar, e há quem não se lembre de nada”, referiu.
Para Clara Florensa, casos como Palomares demonstram que a comunicação de ciência não é um processo neutro. Pelo contrário, está frequentemente condicionada e pode ser estrategicamente utilizada na produção deliberada de ignorância - ou agnotologia.
Questionada sobre se a ocultação ou limitação da divulgação de conhecimento científico continua a ser uma realidade atual, a investigadora respondeu afirmativamente: “Sim, ainda há muita coisa. Não só por interesses políticos, diplomáticos e estratégicos, mas também por existirem sensibilidades religiosas, éticas e morais em torno de determinados temas".