Inclusão não significa tratar todas as pessoas da mesma forma, mas reconhecer que nem todas partem do mesmo ponto. Foi com esta ideia que Maria João Leão, coordenadora do projeto Ciência + Cidadã coordenado pelo ITQB NOVA, iniciou a sessão "Estratégias de Inclusão e equidade na comunicação de ciência e ciência cidadã", que decorreu esta quinta-feira, dia 28 de maio, na Sala dos Azulejos da Universidade de Évora.
O debate contou com a participação de Joana Magalhães, investigadora na Science4Change, Elisabete Brigadeiro, chefe do Gabinete de Ciência e Inovação do Município de Oeiras, Mariana Alves, membro da direção da Cartas com Ciência, e Maria João Tavares, do Gabinete de Internacionalização do ITQB NOVA. Com um formato fishbowl (técnica que convida a audiência a participar no debate), a apresentação foi mais orientada para o diálogo, a escuta e a participação partilhada.

Joana Magalhães destacou que a comunicação de ciência inclusiva é um processo contínuo de aprendizagem. A partir da sua experiência na criação de conteúdos científicos acessíveis, refletiu sobre a importância de considerar dimensões como género, etnia, contexto social e representação na forma como a ciência é comunicada. Foram também referidos projetos e plataformas internacionais - como o COALESCE e o IMPETUS - que disponibilizam recursos e oportunidades para integrar práticas de inclusão em projetos de comunicação de ciência e ciência cidadã.

A ligação entre instituições científicas, municípios e comunidades locais foi sublinhada por Elisabete Brigadeiro, a partir do modelo adotado no município de Oeiras. Projetos como o "Oeiras Experimenta" mostram, segundo a investigadora, que a inclusão requer trabalho articulado e continuado entre ciência, cidadãos e instituições. A finitude dos projetos foi apontada como uma dificuldade recorrente, por poder fragilizar relações que precisam de tempo para gerar confiança.
Mariana Alves reforçou a importância de lideranças que reconheçam a equidade como um esforço intencional e não apenas como um requisito formal em candidaturas ou projetos. Defendeu ainda que a inclusão deve considerar, não só dimensões demográficas, mas também geográficas e geopolíticas, procurando ter um impacto real na forma como a ciência chega a diferentes comunidades. Mencionou ainda, a título de exemplo, o projeto YE(P)STEM, que promove a formação e a sensibilização de professores para estas questões.

Maria João Tavares trouxe para a discussão a experiência da integração de investigadores internacionais nas instituições científicas. A língua, a burocracia, as diferenças culturais e a mobilidade desigual foram os principais fatores apontados para a exclusão dentro da própria comunidade científica. No ITQB NOVA, iniciativas como encontros mensais, cursos de línguas e o programa “A Scientist Walks into a School” procuram criar sentido de pertença e aproximar investigadores estrangeiros da comunidade local.
A participação da audiência alargou a conversa a outros exemplos: projetos com escolas, vídeos de ciência, iniciativas com pescadores e reflexões sobre a inclusão de povos indígenas na produção de conhecimento científico, foram alguns das iniciativas mencionadas. Foi também levantada a questão sobre a desigualdade na prática da comunicação de ciência que, numa comunidade científica com desequilíbrios de representação de género, é frequentemente assumida por mulheres.
Ao longo da sessão, tornou-se claro que comunicar ciência de forma inclusiva implica mais do que adaptar linguagem ou convidar públicos sub-representados para atividades pontuais. Exige relações duradouras, reconhecimento de diferentes saberes e uma mudança estrutural na forma como os projetos são pensados desde a sua origem.