Foi a partir desta questão que Catarina Ramos, coordenadora da equipa de Comunicação, Eventos e Outreach da Fundação Champalimaud, organizou e moderou a mesa-redonda “Alargar Horizontes: Novos Caminhos na Comunicação de Ciência”, dedicada a refletir sobre o papel das parcerias entre influenciadores de ciência e instituições científicas. O painel, composto por comunicadores de ciência institucionais e os chamados influenciadores, ou criadores de conteúdo de ciência, contou com Sara Sá, comunicadora de ciência no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM) e ex-jornalista de ciência; Carla Lourenço, coordenadora da equipa de Comunicação da Coral Research and Development Accelerator Platform (CORDAP) e criadora de conteúdos científicos; Sofia Oliveira, consultora independente e comunicadora de ciência freelancer); e Ana Godinho, coordenadora da Divisão de Comunicação e Engagement da European Spallation Source (ESS), que participou em vídeo.


Mas afinal, o que é um influenciador?
Logo no início da sessão, surgiu a necessidade de definir o termo “influenciador”. Mais do que um fenómeno recente, o conceito de influenciador foi apresentado como a evolução de diferentes formas de mediação de informação — da televisão, com os apresentadores e personalidades célebres, à internet e aos bloggers, até às figuras digitais e criadores de conteúdo que hoje habitam as redes sociais.
“O objetivo é sempre o mesmo, o que muda são os canais e as ferramentas utilizadas”, afirmou Catarina Ramos, num reconhecimento de continuidade entre formas antigas e novas de influência. Destacou-se ainda a influência dos algoritmos na disseminação descentralizada de conteúdos. Para Ana Godinho, a audiência tem um papel central na definição de influenciador, considerando-o alguém com seguidores que são efetivamente impactados pelos conteúdos que produz e partilha em plataformas digitais.

Para cada público, uma estratégia diferente
Um dos consensos mais claros da sessão foi a impossibilidade de pensar a comunicação de ciência como um modelo único. “Não há one size fits all”, sintetizou o debate, sublinhando a necessidade de adaptar mensagens, formatos e plataformas a públicos distintos. Essa diversidade de audiências foi também apresentada como uma das razões pelas quais as parcerias entre instituições científicas e influenciadores têm ganho relevância no contexto institucional. Para Sara Sá, estas colaborações permitem “sair da bolha” e chegar a audiências não habituais no meio científico, através de figuras com credibilidade própria em diferentes comunidades digitais. Carla Lourenço sublinhou o impacto que estas parcerias podem ter na amplificação de mensagens científicas, e deu como exemplo as parcerias entre a CORDAP e personalidades como o DJ Steve Aoki e até membros da realeza da Arábia Saudita, capazes de mobilizar atenção para problemáticas como o estado de conservação dos corais, promovendo maior envolvimento e ação por parte do público. Sofia Oliveira destacou ainda que a escolha de influenciadores para parcerias deve ser orientada pelo público-alvo de cada iniciativa, tendo em conta as características demográficas e as audiências específicas e diversificadas que cada criador de conteúdo pode alcançar.

Influência, credibilidade e o equilíbrio entre alcance e rigor
A presença de influenciadores no espaço científico levanta questões sobre credibilidade, responsabilidade e confiança. Durante o debate com o público, surgiu a ideia da existência de “boas” e “más” influências. Mais do que promover o consumo passivo de informação, os participantes defenderam a importância de estimular o pensamento crítico e o envolvimento informado, distinguindo entre sensibilização e desinformação. Uma das preocupações levantadas foi que a ausência de formação científica da maior parte dos influenciadores possa levar a simplificações excessivas ou até a erros de conteúdo na informação disseminada. Por isso, destacou-se a importância do equilíbrio entre o alcance e o rigor da informação científica. A colaboração entre instituições e criadores foi descrita como uma forma de conjugar estas duas dimensões — com os influenciadores a funcionarem como “porta de entrada” para novos públicos, enquanto as instituições asseguram o enquadramento científico e a precisão dos conteúdos.
O painel destacou ainda a relevância dos critérios utilizados pelas instituições na escolha de parceiros, de modo a garantir maior credibilidade e construir uma relação de confiança com o público. Carla Lourenço sublinhou a importância de avaliar cuidadosamente valores, mensagens e alinhamento antes de avançar com colaborações. Ana Godinho reforçou esta ideia com a necessidade de coerência entre a narrativa institucional e o perfil do criador de conteúdo, bem como a análise do seu percurso e associações anteriores. Em muitos casos, explicou, existe ainda uma fase de validação dos conteúdos prévia à publicação. Esta prática foi discutida em contraste com o jornalismo tradicional, em que o jornalista mantém controlo editorial sobre a peça final. Se há um ponto de convergência entre os intervenientes, é a ideia de que estas colaborações exigem equilíbrio. Ana Godinho destacou a importância de abertura institucional, alertando para o risco de controlo excessivo sobre criadores de conteúdo, o que pode comprometer autenticidade e impacto. A confiança surge assim como elemento central nestas parcerias, tanto na relação entre instituições e criadores como na forma como essa colaboração chega ao público. Ainda assim, ficou clara uma preocupação comum: garantir que o objetivo da comunicação não se esgota na visibilidade ou na viralidade, mas contribui efetivamente para a literacia científica dos públicos.

Comunicação em transformação
A comunicação de ciência está a atravessar uma mudança estrutural. Num ecossistema dominado por plataformas digitais, algoritmos e públicos fragmentados, as parcerias entre instituições científicas e criadores de conteúdo surgem como uma estratégia valiosa para amplificar mensagens científicas e acompanhar a rápida transformação mediática e cultural dos nossos tempos. No final da sessão, as oradores concordaram com a ideia de que muitas equipas de comunicação institucionais enfrentam problemas de recursos humanos e técnicos perante o ritmo acelerado de evolução das plataformas, como no TikTok, onde os jovens tendem a consumir mais informação.

Comunicar ciência hoje implica não apenas a adaptação a novas plataformas, mas também escolhas estratégicas sobre onde e como investir tempo e capacidade. Num cenário em que a atenção do público se dispersa, nem sempre as instituições conseguem acompanhar.