
Nascida em Espinho, em 1982, com uma personalidade curiosa e inquisitiva, Joana Magalhães sempre teve múltiplos interesses, uma faceta que dificultou a decisão pela área inicial de estudo. Como tantos da sua geração, foi fortemente influenciada pela ficção televisiva e cinematográfica e pela forma como ambas retratam a ciência e os seus protagonistas. Acabou por optar pela área das ciências médicas e forenses, elegendo a Universidade de Aveiro como alma mater para o início do seu percurso académico.
Após a experiência em Aveiro, seguiu-se um ano de estudos num dos principais centros de imunologia e de estudos de vacinação da Bélgica, que se localiza na Universidade de Gante. Esta oportunidade, obtida ao abrigo do programa de intercâmbio universitário europeu Erasmus, permitiu à cientista e comunicadora um primeiro contacto com o complexo mundo da investigação com modelos animais.
Porém, a curiosidade manteve-se e, no regresso a Portugal, optou por prosseguir os seus estudos na mesma área. À boa maneira portuguesa, nem a ausência de rede de contactos a deteve, chegando a recorrer às antigas Páginas Amarelas para contactar potenciais instituições que a recebessem.
”Não tinha contactos de ninguém e a minha solução foi recorrer às Páginas Amarelas, das quais hoje já pouca gente se lembra”, conta.
A resposta veio do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Um projeto abrangente numa área que ainda hoje tem diversas aplicações em cuidados de saúde e potencial para continuar a desenvolver-se - a medicina regenerativa e engenharia de tecidos. Este foi possível pela atribuição de uma bolsa para o prestigiado e exigente programa doutoral europeu Marie Sklodowska-Curie. Estavam abertos novos horizontes para a sua contribuição na transferência do conhecimento científico para os cuidados de saúde - o famoso “from the bench to the bedside”.
Quando o “não” leva a outro “sim”: o admirável mundo “novo” da comunicação de ciência
O percurso de Joana Magalhães tem sido feito de transições. Levar a ciência ao cidadão não era suficiente, faltava o caminho inverso: envolver o cidadão na ciência. Mas, mais uma vez, o percurso começa com um “não”. A primeira tentativa de trazer a iniciativa da Noite Europeia dos Investigadores na Corunha (Galiza) não foi aprovada, mas permitiu à criação de uma rede de contactos importante para os projetos seguintes. Inspirada pela série “Um minuto de Astronomia”, criou a série televisiva “Um minuto de biomedicina” com o objetivo de explicar diferentes conceitos da área das ciências biomédicas às crianças.

Na segunda série - intitulada “Quando for grande, quero ser cientista” -, Joana Magalhães procurou discutir o modo como diferentes áreas científicas e tecnológicas (STEM, na sigla inglesa) podem ter impacto na saúde das pessoas.
Foi também neste segundo projeto televisivo que começou a explorar a sua consciência feminista na ciência. Inspirada no estudo “The Scully Effect: I want to believe in STEM”, do Media Institute da atriz Geena Davies, explorou a forma como as cientistas são representadas na ficção mediática para o público infantil e como esta representação pode influenciar a percepção deste sobre as carreiras STEM. A aposta em jovens investigadores como atores na série “Quando for grande, quero ser cientista”, permitiu a Joana Magalhães criar uma conexão mais próximas entre o público-alvo - os cidadãos - e as comunidade educativa e científica.
"Difuminamos", logo comunicamos
Para Joana Magalhães, “a ciência deve servir a sociedade e os seus cidadãos”. Não apenas colocá-los no papel de receptores passivos, mas também de participantes ativos e até co-criadores. O papel do cientista e do comunicador de ciência é, para a investigadora, fundamental, inclusive como “mediador na defesa que o cidadão faz da democracia”.
Tudo isto esteve na base do COALESCE, do qual é co-coordenadora. Este projeto foi iniciado como uma constelação de oito iniciativas europeias já existentes, cujo desígnio comum era criar um “European Competence Center for Science Communication”. As funções principais do COALESCE incluem a formação, reconhecimento e profissionalização dos comunicadores de ciência.
Um dos mantras de Joana, é “I don't tick the boxes by compliance, but for commitment” (“não risco tarefas na minha lista por conformidade, mas sim por compromisso”, em português). Para a investigadora, este lema traduz-se numa vida indissociável da ciência, especialmente da ciência cidadã.
Até nos seus momentos de “pausa”, o trabalho está presente. Dedica o pouco tempo livre que tem a uma pequena horta comunitária, num dos bairros mais participativos e reivindicativos de Barcelona, numa tentativa de lembrar os tempos no laboratório e a necessidade de manter o trabalho focado.
"Só me apercebi da falta que o trabalho de laboratório me fazia, quando comecei a dedicar-me à horta comunitária", partilha a comunicadora, sublinhando que estar em contacto com a comunidade também lhe dá mais ideias para novos projetos de ciência cidadã - a desenvolver algures no futuro
A sua palavra preferida, “difuminar”, tem paralelo nas expressões “difundir a luz” e no ato de esfumar usado por artistas plásticos. “Difuminar” comunica, leva a sentir. A surpresa e os trabalhos de excelência inspiram-na e desafiam-na. Dias típicos, não há. Apenas a busca constante por novas perguntas e novos caminhos.