
A Inteligência Artificial (IA) foi o tema da primeira sessão plenária do congresso SciComPt2026, esta quarta-feira, dia 27 de maio. Numa sessão interativa, José Sotero, doutorando em Media Digitais e professor convidado na NOVA FCSH e no IADE, procurou mostrar que a IA é uma ferramenta de trabalho útil e diversificada para cientistas e jornalistas. Ressalvou, contudo, que esta ferramenta não é como as outras - uma vez que aprende, adapta-se e influência o utilizador - e, por isso, deve ser utilizada com cuidado e critica.
“Os métodos digitais têm uma componente que nos permite analisar grandes volumes de dados, que, de outra forma, não teríamos capacidade humana", afirma o investigador, dando como exemplo uma investigação sobre as publicações partilhadas em redes sociais.
Durante a sua comunicação o investigador quis perceber a relação dos participantes com a IA, nomeadamente se usam esta ferramenta para o trabalho científico e se consideram que a IA consegue realizar o mesmo trabalho que um investigador. José Sotero revelou não estar surpreendido com as respostas da plateia. Na sua intervenção, o investigador apelou à utilização da IA de forma critica, interrogativa e cética, sublinhando que a tecnologia não serve para ter ideias, mas sim para executar as ideias do ser humano.
"Temos de ter em consideração o que é que estamos a perder e o que estamos a ganhar, se os benefícios e os malefícios são ou não justos para o que queremos fazer", afirmou José Sotero. "Isto está presente no nosso dia-a-dia, não podemos ignorar. E não se trata de estar contra ou estar a favor, acho que não é o nosso papel. Temos que estar conscientes dos dois lados e perceber como é que nós podemos abrir caminho."
Durante a apresentação interativa, José Sotero quis saber o que o público pensa sobre a utilização de inteligência artificial em contexto científico. "Estava à espera que a maior parte [dos participantes] já tivesse utilizado a IA como ferramenta num método de investigação, mas estava a contar com um número um bocadinho maior [na utilização] como método de investigação", confessa o investigador, lembrando que a maioria dos participantes do SciComPt2026 podem estar associados às ciências sociais, o que pode influenciar as respostas.
Para José Sotero, esta sessão plenária foi "mais uma pedra lançada no lago", ou seja, permitiu agitar as águas. "Percebi que algumas ideias iam ficando, que há algum desconforto - mesmo que leve - e uma possível reflexão no dia-a-dia. Já fico bastante contente que isso aconteça. Considero que é muito pequenino para causar qualquer tipo de impacto", afirma.
Nas universidades "ainda há muita fricção à utilização da IA"
José Sotero defende que deve de existir uma congregação de forças no ensino e do mercado de trabalho, para que seja possível criar condições para futuros trabalhadores tenham conhecimento e desenvolvimento necessário para utilizar IA no seu dia à dia. O investigador defende que a academia e as empresas devem andar "de mãos dadas" na transição para a IA.
"Era interessante percebermos o que é que as empresas estão a aplicar, o que estão à procura e o que a academia (universidades e politécnicos) pode contribuir, cada um na sua área e no seu posicionamento, para que esta transição seja o mais pacífica possível e o mais adequada ao bem-estar de quem vai entrar no mercado de trabalho."
Com base na própria experiência, José Sotero confessa que há bons exemplos tanto na academia como na indústria, apesar de notar que "ainda há muita fricção à utilização da IA" nas faculdades. Esta resistência pode estar associada ao cansaço do corpo docente, uma vez que a tecnologia "obriga a repensar as formas e os conteúdos".
"Estamos habituados a ter uma fórmula. Sempre fizemos assim, então vamos tentar trazer a IA para cima disto. Só que, muitas vezes, a IA não se compactua com os métodos que nós tínhamos. E é interessante que, muitas vezes, acaba por haver uma desistência ou um ignorar da questão", partilha o investigador.