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"Jovens a falar para jovens": a ambivalência do TikTok na comunicação de ciência

Experiências, desafios e preocupações marcaram a reflexão sobre o uso do TikTok na comunicação de ciência na SciComPt2026. Por Andreia Pasadas (texto e fotografia)

Sessão Completa: “TikTok e Comunicação de Ciência: desafios, estratégias e co-criação” Foto: Andreia Pasadas
Sessão Completa: “TikTok e Comunicação de Ciência: desafios, estratégias e co-criação” Foto: Andreia Pasadas

“Parte do público que queremos alcançar e reter está no TikTok.” A ideia lançada por Henrique Pereira, do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, deu o mote para uma sessão que colocou a comunicação de ciência perante uma plataforma "marcada pela velocidade, pela criatividade e pelo peso do algoritmo". Integrada na SciComPt2026, “TikTok e Comunicação de Ciência: desafios, estratégias e co-criação” decorreu esta quinta-feira, 28 de maio, em formato fishbowl - uma técnica que convida a audiência a “entrar na conversa” e a partilhar experiências, dúvidas e estratégias.

A discussão procurou refletir sobre a forma como a “comunicação de ciência pode adaptar-se a uma plataforma onde a atenção se conquista em poucos segundos”, lembrando que o TikTok é um “espaço simultaneamente associado ao potencial de descoberta e aos desafios da desinformação, da sobre-estimulação e da opacidade algorítmica”.

Durante a comunicação, foram apresentados dois projetos de comunicação de ciência que fazem usam esta rede social para promover a "aproximação entre ciência e públicos”. O projeto ‘Oceano Aberto’, apresentado por Ana Carolina Sousa, do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), e por Gonçalo Brito, do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR), deu a conhecer uma experiência colaborativa e interinstitucional dedicada à literacia do oceano.

Existe uma “clara urgência de multiplicar os canais de comunicação”

O papel da co-criação na construção da narrativa e a necessidade de pôr "jovens a falar para jovens" foram as principais ideias da intervenção. “Quando colocamos jovens, investigadores e comunicadores a construir conteúdos em conjunto, criamos uma linguagem mais próxima e mais eficaz para chegar a diferentes públicos”, afirmou Gonçalo Brito.

Também o Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, apresentou a sua estratégia para o TikTok, centrada na "criação de comunidade e proximidade com estudantes", dando como exemplo a plataforma ‘Técnico_student’, dinamizada por uma equipa interna e orientada para diferentes segmentos de público.

“Como comunicar e manter os números sem perder o formalismo necessário?”, questionou Sílvio Mendes, orador também convidado do Técnico, ao refletir sobre o equilíbrio entre a identidade institucional e as dinâmicas de uma plataforma orientada pela rapidez e pelo alcance.

Para o comunicador, existe uma “clara urgência de multiplicar os canais de comunicação” e de pensar “como é que convertemos as nossas histórias no formato adequado”. Neste contexto, Sílvio Mendes destacou ainda a comunidade estudantil como “veículo” para reestruturar a comunicação institucional e académica que se faz a pensar no TikTok.

Sílvio Mendes, orador convidado do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa. Foto: Andreia Pasadas
Sílvio Mendes, orador convidado do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa. Foto: Andreia Pasadas

A audiência foi chamada a refletir sobre os conteúdos que consome no TikTok e sobre o que mais valoriza - ou rejeita - na plataforma. Criatividade, entretenimento e descoberta surgiram entre os aspetos mais positivos identificados pelos participantes, enquanto a desinformação, a opacidade do algoritmo e a sensação de sobrecarga de estímulos apareceram entre as principais reservas.

Os dados apresentados durante a sessão ajudaram a contextualizar a dimensão da rede social: o TikTok é atualmente a 5.ª plataforma mais utilizada do mundo, com cerca de 2 mil milhões de utilizadores ativos e uma média de 95 minutos de utilização diária. Ainda assim, vários participantes reconheceram que a “comunicação de ciência continua pouco presente naquele espaço digital”, muitas vezes devido ao "conservadorismo" institucional e à "dificuldade em reconhecer o potencial da plataforma para conteúdos científicos".