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Novos caminhos no combate à desinformação científica

A ciência como património foi o principal tema abordado por Juri Castelfranchi, na 1ª sessão plenária do segundo dia do SciComPt 2026. O especialista propôs uma comunicação mais aberta, participativa e colaborativa, em que os cidadãos também produzem conhecimento científico e ajudam a definir problemas e soluções. Por Helena Paulino e João R. Neves (texto e imagem)

Juri Castelfranchi coordena o observatório interdisciplinar InCiTe (Invovação, Cidadania e Tecnociência). Henrique Pereira/Redação ScicomPt 2026
Juri Castelfranchi coordena o observatório interdisciplinar InCiTe (Invovação, Cidadania e Tecnociência). Henrique Pereira/Redação ScicomPt 2026

Juri Castelfranchi começou por questionar se a ciência é património, o direito à ciência “é também um direito à participação e à fruição” mesmo tendo alguns obstáculos. Relembrou que existem profissionais de saúde e investigadores que “são indeléveis, predadores, ou pragas, ou organismos invasores que estão no nosso ecossistema, queiramos ou não queiramos”, numa analogia entre a comunicação de ciência e o ecossistema natural. Estes atores - desde cientistas, divulgadores de ciência, comunicadores políticos e culturais - conseguem ter credibilidade ao longo dos anos, dentro da sociedade, porque estão dentro do ecossistema científico. Isto garante-lhes uma autoridade mais sólida relativamente ao conhecimento científico. O autor exemplifica que alguns fenómenos como "curas quânticas ou águas alcalinas não estão fora desse ecossistema: fazem parte dele e precisam de ser compreendidos e não rejeitados”.

Por isso, o autor critica o modelo tradicional em que o cientista surge como autoridade superior perante o público. Propõe uma visão diferente, mais participativa em que “as pessoas são vistas como cidadãs científicas, com direito a participar, questionar e criar ciência, e nao apenas a consumi-la”. Democratizar a ciência não é só divulgá-la, mas partilhar algum poder de decisão sobre o que pode ser feito pelos cientistas.

A comunicação de ciência constitui, assim, uma componente essencial das políticas que promovem o exercício de uma “cidadania tecnocientífica”, sustentada não apenas por processos de alfabetização, mas igualmente por identidade, pertença e poder.

Ciência como um direito universal



“A ciência tem um grau de reconhecimento coletivo muito importante", apesar de muitos cientistas acreditarem que a sociedade não gosta da ciência. O orador trouxe dados da realidade brasileira, porque estão em linha com a maioria dos países europeus: a grande generalidade da população tem uma opinião positiva da ciência. O que é surpreendente é que "quase ninguém sabe nomear o nome de um cientista brasileiro", referiu o orador.

O participante relembrou que na Declaração Universal dos Direitos Humanos há um artigo que aborda o direito à ciência e à cultura, o que consolida a "formulação da ciência como um património ligado a um direito universal". Isto quer dizer que já em 1948 já se discutia no direito de participação de todos no acesso à ciência e a receber uma informação credível sobre a mesma.

Neste sentido, Juri fala do “comunicador clorofila”. Este “é um comunicador que não injeta conhecimento nas pessoas, mas atua como catalisador de processos que já acontecem na sociedade, ajudando-os a tornar-se mais ricos, críticos e construtivos”, conclui.

Juri Castelfranchi desconstruiu a visão tradicional e estática que a sociedade tem sobre o conhecimento científico. Henrique Pereira/Redação ScicomPt 2026
Juri Castelfranchi desconstruiu a visão tradicional e estática que a sociedade tem sobre o conhecimento científico. Henrique Pereira/Redação ScicomPt 2026

Comunicar de dentro para fora

O orador expôs diferentes formatos que mostram como podemos incluir as populações no processo científico e como isso pode servir o propósito de comunicá-la mas, também, de o tornar acessível. “Patrimônio não é algo para contemplar.”, prosseguiu, “se a comunicação de ciência quer tratar esta como património, então, precisa de autorizar e se autorizar a deixar as pessoas fazerem algo com ela.”



O professor defendeu que a ciência só pode ser entendida como património se os públicos forem encarados como verdadeiros “cidadãos da ciência”, e não apenas como recetores passivos de conhecimento. Para ilustrar essa ideia, recorreu ao conceito de cidadania, sublinhando que esta implica pertença, identidade, direitos e responsabilidades.

Segundo o investigador, comunicar ciência não passa apenas por “levar ciência às pessoas”, mas por integrar os cidadãos nesse universo, permitindo-lhes participar ativamente nas discussões e decisões sobre temas tecnocientíficos que moldam a sociedade contemporânea, como as alterações climáticas, a genética ou a inteligência artificial.

O palestrante salientou ainda que uma sociedade democrática exige participação também nas decisões relacionadas com a ciência. Nesse sentido, defendeu uma “cidadania tecnocientífica”, em que os cidadãos não sejam apenas beneficiários dos avanços científicos, mas também agentes com responsabilidade e poder de intervenção.



O investigador defendeu que os públicos devem deixar de ser vistos como pessoas com “défices de conhecimento” e passar a ser reconhecidos como participantes ativos no ecossistema científico, trazendo consigo os seus próprios saberes, experiências e formas de compreender o mundo.

A audiência da palestra, emotiva durante a sessão plenária. Teresa Gonçalves/Redação ScicomPt 2026
A audiência da palestra, emotiva durante a sessão plenária. Teresa Gonçalves/Redação ScicomPt 2026

Democratizar a ciência: participação, confiança e diálogo de saberes

Sendo a ciência um património coletivo não deve ser apenas controlado pelos especialistas, mas apropriado, reinterpretado e utilizado pelas pessoas das mais diversas formas. Juri Castelfranchi apresentou vários exemplos de uma participação mais ativa da sociedade através de assembleias deliberativas sobre edição genética, projetos com comunidades indígenas que ensinam outras formas de compreender o mundo, iniciativas que durante a pandemia ajudaram na divulgação científica, e casos de gestão ambiental em que conhecimentos tradicionais são importantes na preservação das espécies.

Juri explicou ainda que “combater a desinformação exige mais do que simplesmente fornecer factos científicos. Muitas vezes, as crenças e rejeições à ciência estão ligadas a valores, desconfiança institucional e experiências sociais.”

Os povos indígenas foram um exemplo muito utilizado pelo orador que relatou que existiram “experiências com povos indígenas para mostrar que existem outras formas legítimas de perceber o mundo e produzir conhecimento”. Defende que os comunicadores da ciência devem atuar menos como “missionários” e mais como facilitadores de processos coletivos.



Como podemos resolver todos estes problemas e melhorar a comunicação de ciência? Juri Castelfranchi enumera três açõe importantes: “a profissionalização da comunicação da ciência; a importância de políticas públicas para fortalecer o setor e a autoridade científica deve depender da confiança social e da legitimidade cultural atribuída pelas pessoas.”



O professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) terminou a sua apresentação, explicando que “democratizar a ciência significa abrir espaço para participação real, diálogo entre saberes e construção conjunta de soluções, sem abandonar o pensamento crítico nem o combate à desinformação”.