
Hernâni Oliveira, da organização, deu o pontapé de saída das Jornadas do SciComPt, falando da aposta na sustentabilidade fortemente apoiada pelo consórcio EU GREEN, patrocinador desta sessão de abertura. Cesaltina Pires, professora da Universidade de Évora e coordenadora local da aliança, destacou este consórcio europeu que pretende construir uma universidade europeia, com base no desenvolvimento da sustentabilidade económica, social, cultural e ambiental.
Cesaltina Pires explicou ainda que o objetivo do EU GREEN, a longo prazo, passa pela criação de um pólo europeu de educação, investigação e inovação com base na sustentabilidade, capaz de ultrapassar as fronteiras do consórcio e atuar numa escala global.

A ciência por entre conversas de bar
Orlando Fernandes e Natália Melo, ambos professores da Universidade de Évora (UÉ), subiram ao palco para contar a história do PubhD, como nasceu e chegou a Portugal e, em particular, a Évora. O PubhD, de pub (bar) + PhD (doutoramento), é um evento regular, normalmente mensal, em que estudantes de doutoramento, das mais diversas áreas, se juntam num bar para explicar a sua investigação a uma audiência não especialista, que, em troca, desfruta de uma bebida.
Cada sessão consiste em duas a três apresentações de dez minutos cada, seguidas de cerca de 20 minutos de debates informais. Nestes espaços de divulgação científica, os investigadores não podem usar suportes digitais, mas os oradores são incentivados a recorrer a objetos que ajudem a ilustrar as suas histórias.
Este projeto nasceu no Reino Unido, em 2014, num bar em Nottingham, com o objetivo de aumentar o à-vontade e a confiança dos alunos em apresentações, enquanto se promove a literacia científica da audiência. O PubhD chegou a Portugal em 2015, pela iniciativa do designer de comunicação Sérgio Pereira, tendo o primeiro evento decorrido em Lisboa, cidade onde o projeto já conta com dezenas de edições. Chegou a Évora pouco depois, em junho de 2016, pela mão de Natália Melo, no Horas Incertas Jazz Club, consolidando um modelo que aproxima a ciência do público num ambiente descontraído.

História da Botânica algures entre Londres e a Guiana
Sara Albuquerque fez uma retrospetiva do seu doutoramento, uma aventura que começou há quase 20 anos, em Londres, mas que a levaria à Guiana. “As histórias e as aventuras são muitas”, explica a professora da UÉ.
“Cross-Cultural Histories of Tropical Botany in Latin America” é o título da sua tese de doutoramento em História da Ciência, que realizou na Universidade de Londres e que se centrou nas coleções de botânica económica dos Royal Botanic Gardens, Kew, procurando reconstituir a história destas mesmas peças. Os dois meses que passou em duas tribos - Macushi e Aracuna - da antiga Guiana Britânica, são as memórias mais ativas desta aventura. Relembra, com emoção, quando lhe cantaram “Grândola, Vila Morena” enquanto comia o melhor caril de camarão de sempre, ou quando, receosa, molhou os pés num rio com piranhas. A história e o trabalho de Hannah im Thurn, artista botânica e esposa do naturalista Everard im Thurn, deixaram Sara Albuquerque fascinada, ao ponto de lhe dedicar um capítulo da sua tese, explorando o papel frequentemente invisibilizado das mulheres na ciência do século XIX.
O interesse de Sara Albuquerque pela Botânica começou muito cedo, em 2004, quando era guia nos Jardins Botânicos de Lisboa, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC). Atualmente, Sara é investigadora auxiliar da UÉ, responsável pelo projeto KNOW.AFRICA, que explora as invisibilidades das expedições portuguesas a África, e investigadora principal do projeto exploratório W.Box.Project, uma estufa para transporte de plantas entre continentes.

Como o design pode ajudar a comunicar saúde à geração Z
A rapidez e a criatividade são dois fatores que marcam o trabalho de Susi Pereira, da licenciatura de Biologia Humana, e Pedro Santiago e Santiago Uribe, ambos da licenciatura de Design. Estes três alunos da UÉ foram os vencedores do projeto “Immunity by Design”, um trabalho sobre Hepatite A dirigido à geração Z.
O projeto vencedor foi encabeçado pela mascote Apatite (referência ao meme). A interface principal escolhida pelo grupo foi um website, onde se podem encontrar muitas informações sobre a doença, a sua transmissão, os sintomas e o desenvolvimento da vacina. Tudo explicado numa linguagem simples, intercalada com gíria e calão, de forma a facilitar a compreensão dos temas e captar a atenção de um público frequentemente associado a tempos de atenção mais curtos.
As cores, o design ativo, e a integração de som tornam este projeto adaptado ao público-alvo, fatores que evidenciam a oportunidade que esta interligação entre duas áreas tão diferentes pode ter na melhoria da literacia da saúde. O grupo criou ainda uma conta no Instagram para divulgar o projeto e admite que a receção pode ser polarizada, devido à direcionalidade a uma audiência tão restrita: “Falem bem ou mal, o importante é que falem!”
Estes três alunos pretendem continuar a desenvolver comunicação científica dirigida a públicos jovens, contribuindo para combater a desinformação em saúde que cresce a olhos vistos nas redes sociais.
11 projetos de alunos elaborados na disciplina de Imunologia, da licenciatura em Biologia Humana e da disciplina de Design de interfaces da licenciatura em Design, ambos da UÉ, trabalharam em equipas mistas, desde março de 2026, no Projeto “Immunity by Design: projetos de colaboração intergeracional sobre vacinas”.
Esta iniciativa pretendeu elaborar projetos de comunicação científica sobre o funcionamento e importância das vacinas, dirigidos a um público exigente: a geração Z. Deste projeto nasceram interfaces visuais e narrativas interativas, como websites, posters e panfletos.

O SciComPt 2026 pretende olhar para a comunicação de ciência como uma herança cultural e, em simultâneo, como um compromisso para o futuro.
A sessão de abertura cruzou ciência, criatividade e formatos pouco convencionais de comunicação. Entre histórias de investigação, projetos colaborativos e iniciativas que aproximam a sociedade e a ciência, mostrou como o conhecimento científico pode, e deve ser, partilhado em espaços não tradicionais.