
Eram 23h30 e, no anfiteatro do Observatório do Lago Alqueva, as luzes já tinham ficado para trás. Aos poucos, os olhos ajustavam-se à escuridão e o céu começava a revelar aquilo que, minutos antes, parecia “quase impercetível”. Primeiro alguns pontos dispersos, depois linhas imaginárias, constelações, manchas difusas da Via Láctea e enxames de estrelas suspensos sobre Monsaraz. A noite do programa social do SciComPt2026 era, agora, de ‘olhos postos no céu’.
“Metam a vossa mão esquerda em direção da Ursa Maior, e a vossa mão direita na constelação Cassiopeia e agora batam uma palma”, indicou Eduardo Grilo, guia da sessão de observação. O som das palmas atravessou o anfiteatro e foi seguido por exclamações imediatas. Entre as mãos, surgia a Estrela Polar, um ponto fixo num céu em permanente movimento.
Apesar da forte luminosidade da Lua, que dificultou parte da observação astronómica, a curiosidade do manteve-se durante toda a explicação. Entre os seis telescópios instalados no observatório, os participantes alternavam posições para observar diferentes corpos celestes, enxames estelares e nebulosas - uma estrela "morta, morrida e matada", como lhe chamou Eduardo Grilo.

“O mais interessante foi perceber que o céu também pode ser lido”, partilhou Alexandre Ferreira, comunicador de ciência da Stickydot. “Quando alguém nos mostra como encontrar uma constelação ou seguir uma estrela, deixamos de olhar para pontos soltos. Começamos a ver relações”. A observação transformava-se assim num exercício de orientação no céu noturno, onde referências astronómicas passavam a funcionar como pontos de encontro partilhados entre os participantes.
Ao longo da noite, a escuridão do Alqueva revelou-se parte essencial da experiência. Longe da iluminação urbana e com os telemóveis no bolso, o céu tornava-se progressivamente mais denso, preenchido por estrelas que surgiam em camadas sucessivas acima do anfiteatro.
“Parecia que o céu ia crescendo à medida que os nossos olhos se habituavam”, descreveu Catarina Gonçalves, do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA). “A certa altura deixei de tentar fotografar ou procurar nomes. Fiquei só a olhar.”
Entre cabeças voltadas para o céu, luzes reduzidas ao mínimo e telescópios apontados à noite alentejana, o programa social do SciComPt2026 prolongou as conversas do encontro científico para fora da conferência. Em Monsaraz, a comunicação de ciência aconteceu também em silêncio, de olhos postos nas estrelas.