
A jornalista de ciência Teresa Firmino participou na mesa-redonda “Das redes sociais ao laboratório: como é que a desinformação impacta a ciência?”, que se realizou ontem, 28 de maio de 2026, no âmbito do congresso SciComPt2026.
A editora de ciência do Público, no cargo desde 2012, explicou que a desinformação promovida por influenciadores digitais faz com que o jornalismo de ciência dedique muito tempo a repor a verdade, em vez de investigar temas como descobertas científicas e política científica nacional e internacional. Teresa Firmino defendeu ainda que o jornalismo não é apenas informação, é informação verificada, com ética. A jornalista chamou a atenção para o perigo da “informação mastigada” e fragmentada que as pessoas recebem, dentro da sua bolha digital, sem se perceber qual a fonte que lhe deu origem.
Em entrevista à redação do SciComPt2026, Teresa Firmino aprofundou estes e outros temas sobre o jornalismo de ciência em Portugal.
Redação SciComPt 2026: A ciência é muito vasta e nem toda a produção científica é divulgada nos média. O que é que faz de um acontecimento científico ser notícia? Há valores-notícia próprios do jornalismo de ciência?
Teresa Firmino: O jornalismo de ciência partilha os mesmos critérios noticiosos do jornalismo: a proximidade, a raridade da informação, se é um resultado de uma equipa de investigação portuguesa, se o avanço científico tem impacto em muitas pessoas ou se é uma descoberta absolutamente extraordinária. Todos os critérios noticiosos que aplicamos para qualquer outra área, aplicamos também no jornalismo de ciência. O jornalismo de ciência é jornalismo tal como o jornalismo político, desportivo ou cultural.
RS: Também podemos falar de lobbies no jornalismo de ciência?
TF: Sim, exatamente como em qualquer outra área do jornalismo. Perante interesses legítimos – uma equipa científica que quer ter visibilidade, por exemplo – o jornalismo tem de saber lidar com a pressão e perceber se faz sentido dar aquela notícia. Também há pressão política na área da política científica, quer por parte da comunidade científica, quer por parte do ministério que tutela a ciência. Outro dos problemas é o facto de muitas vezes, o jornalismo de ciência não ser entendido como jornalismo e sim como divulgação científica ou comunicação de ciência. Nós também comunicamos e divulgamos ciência, mas o que estamos a fazer, na essência, é jornalismo. É denunciar situações que possam afetar a comunidade científica, é falar das políticas científicas, de polémicas e controvérsias científicas.
RS: Existem olhares enviesados na forma como o jornalista de ciência olha para os acontecimentos científicos?
TF: Sim, existem. Temos de estar conscientes, enquanto jornalistas, da influência do cientista como autoridade e este será o principal viés a ter em atenção. Não é por ser um cientista que tudo o que diz é verdade factual, primeiro porque as pessoas se enganam de uma maneira inconsciente e segundo porque também têm os seus interesses próprios. O cientista é uma fonte como outra qualquer e quer dar visibilidade ao seu trabalho. Ver o cientista como uma autoridade pode levar a minimizar verificações.

RS: O mesmo acontece quando estamos perante um artigo, que já foi publicado numa revista científica, validado por pares.
TF: Exatamente. O artigo científico publicado é muitas vezes visto como uma autoridade, mas a ciência é um processo. Outro viés é olhar para o cientista como alguém que pode falar sobre tudo e não perceber que dentro da ciência há especializações. Até dentro da mesma área científica nem todos os cientistas são as melhores pessoas para falar sobre tudo.
RS: Muita da ciência que vemos nos média é aplicada. Há espaço para a ciência fundamental? Ou o jornalista de ciência tende a transformar ciência mais abstrata em utilidade na sua divulgação?
TF: Para mim, a ciência não tem de ser, de todo, aplicada. Eu vejo a ciência como um esforço coletivo maravilhoso, talvez o exemplo do melhor que a humanidade pode fazer. O que interessa é que a ciência seja boa. A ciência fundamental de descobrir que uma célula funciona de uma determinada maneira ou que existe uma espécie nova de ave é linda e não interessa se tem aplicação ou não.
